A origem do mal em nós

Comentar um texto, que por sua vez transmite uma idéia, não é uma tarefa fácil. A interpretação ou exegese envolve aspectos vários, tais como a contextualização no espaço-tempo, o público-alvo, as influências sobre o autor e por aí vai. Entretanto, constitui-se em tarefa necessária nas casas espíritas, pois o estudo é uma condição fundamental ao esclarecimento e, portanto, à mudança de atitudes. Quando o assunto envolve partes mais polêmicas da Doutrina Espírita, a interpretação tem que ser acompanhada de cuidado redobrado, a fim de não desvirtuar os princípios doutrinários, nem as idéias dos autores em estudo. Após esta breve introdução, apresento uma proposta de interpretação a uma pequena passagem de autoria de Manoel Philomeno de Miranda, que, numa leitura superficial, parece contradizer os ensinamentos de Kardec:

(…) Ninguém, à exceção de Jesus, consegue o êxito total no empreendimento da evolução, sem viver os diferentes estágios do erro e da correção, do crime e da reabilitação, em face das heranças que permanecem no ser que transitou pelas faixas primárias, que se caracterizam pela supremacia do instinto, do impositivo da cadeia alimentar que impõe a morte de umas em benefício de outras espécies. [1]

O primeiro passo numa interpretação é destacar (ou resumir) as idéias que estão sendo apresentadas. Não cabem acréscimos, nem subtrações. No caso em particular e em outras palavras, está dito no texto que:

  1. todos os Espíritos, exceto Jesus, falham em algum momento do processo evolutivo;
  2. todos os Espíritos, exceto Jesus, erram e são corrigidos, cometem crimes e são reabilitados, em graus diferentes;
  3. tais atitudes são herança das vivências caracterizadas pelo domínio do instinto;

O segundo passo é resumir os princípios básicos da Doutrina, de preferência usando somente as Obras Básicas, relacionados com o texto de interesse. No texto de Manoel Philomeno, temos menção à evolução, portanto, à escala espírita, ao erro e reabilitação e à influência dos instintos nas ações equivocadas. Após uma consulta ao Livro dos Espíritos [2], Questões 97, 115 e 120, podemos escrever que:

  1. Os Espíritos puros, os que atingiram a perfeição, ocupam a primeira ordem da escala espírita; naqueles em que o desejo do bem predomina, constituem a segunda ordem. Na terceira ordem, estão os Espíritos imperfeitos. “A ignorância, o desejo do mal e todas as paixões más que lhes retardam o progresso, eis o que os caracteriza” LE, Q. 97
  2. Os Espíritos, ao serem criados, não são nem bons, nem maus (são simples) e não possuem qualquer conhecimento (ignorantes) – LE, Q. 115;
  3. A cada Espírito Deus deu uma missão a fim de atingirem a perfeição/felicidade; as provas fornecem conhecimento e uns as aceitam sem reclamar e chegam mais rápido à perfeição (LE, Q. 115);
  4. Nem todos os Espíritos incorrem no mal na trajetória evolutiva que sai da ignorância e chega à perfeição (LE, Q. 120);

O terceiro passo consiste em acrescentar considerações pertinentes. No texto sob interpretação, devemos considerar que Manoel Philomeno, através de Divaldo, está falando aos homens e mulheres da Terra, com o objetivo de auxiliá-los em seus progressos evolutivos. Então, é razoável que se faça um certo “recorte” na Escala Espírita, tomando para a análise os Espíritos que estão na Terra, no momento, um planeta de provas e expiações, o que quer dizer que aqui não estão os espíritos no início do processo evolutivo, nem aqueles que já atingiram certa perfeição. Ou seja, como planeta que se caracteriza por ser uma escola-hospital-penitenciária, a Terra abriga Espíritos imperfeitos (terceira ordem) e também aqueles para os quais o desejo do bem predomina (segunda ordem), embora ainda sujeitos ao erro. Como exemplo de espírito perfeito, temos Jesus (LE, Q. 625), guia espiritual da Terra. Então, o “todos” de Manoel Philomeno pode ser entendido como “todos que estão na Terra”, encarnados ou não.

O quarto passo é tentar conciliar os passos anteriores, sem modificar seus conteúdos! Quando isto é possível, podemos dizer que conseguimos uma “boa interpretação” do texto estudado. Vejamos:

Os Espíritos Superiores, em O Livro dos Espíritos, nos dizem claramente que todos partimos de um mesmo início, a ignorância (sem nenhum tipo de conhecimento) e a simplicidade (sem propensão para o bem, nem para o mal). No desenvolvimento das provas (ou tarefas) atribuídas a cada um, é que ocorrerá a diferenciação, pois uns as completarão de sem reclamar da Vontade Divina (que é o Melhor na economia do Universo), outros irão contra esta Vontade, retardando seu progresso. No início, somos guiados unicamente pelos instintos (conservação, preservação da espécie, gregarismo etc.), quando o Espírito estagia nos reinos mineral, vegetal e animal. Ao entrar no reino hominal, inaugura-se o uso do livre-arbítrio; na verdade, é a presença do livre arbítrio, por menor que seja, que faz a demarcação entre os reinos animal e hominal. Claro que nos estágios iniciais da hominilidade, o Espírito está comandado muito mais pelo instinto, do que pela razão ou discernimento.

Assim, parece à primeira leitura que o trecho do Manoel Philomeno está equivocado, pois este autor diz que todos os Espíritos erram e cometem crimes. Entretanto, se tivermos em mente que o autor está falando à Terra, planeta de provas e expiações, isto está correto! Todos que aqui estamos, além de termos passado pela fieira da ignorância, ponto de partida comum, passamos também pela do mal. Caso contrário não estaríamos habitando um planeta de provas e expiações (a propósito, ver o que caracteriza este tipo de planeta em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 3).

Talvez o trecho que deve ser analisado com mais cuidado, na minha opinião é: o erro e o crime decorrem “…das heranças que permanecem no ser que transitou pelas faixas primárias, que se caracterizam pela supremacia do instinto, do impositivo da cadeia alimentar que impõe a morte de umas em benefício de outras espécies.” O instinto por si só não redunda em erro, pois se assim fosse todos os animais seriam considerados criminosos, perante Deus, ao agirem sob os instintos; tampouco os impositivos da cadeia alimentar, onde vemos em todos os reinos da Terra (vegetal, animal, etc) a presença desta característica. O que provavelmente Manoel Philomeno quer dizer é que o erro e o crime decorrem do livre arbítrio mal utilizado, das escolhas equivocadas, dos murmúrios contra a prova a nós imposta pelo Criador, quando da influência cega do instinto; ou seja, todos os Espíritos os quais deixamos nos levar pelas heranças passadas, ligadas aos instintos cegos e impositivos irracionais, estaremos sujeitos ao erro e ao crime. Mas a todos, cabem correção e reabilitação, em graus diversos, nunca a condenação eterna.

Esperamos ter contribuído na interpretação e esclarecimento de um assunto que pode ser árido e de difícil compreensão, se não nos munirmos dos conceitos básicos adequados e sempre elucidativos.

Referências:

[1] FRANCO, D. P., MIRANDA, M. P. (Espírito) Reencontro com a vida. Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada, 2006.

[2] KARDEC, A. O livro dos espíritos. 76ª ed. Tradução de Guillon Ribeiro. RJ: FEB. 1995.

Sobre Adilson J. de Assis

Professor e pesquisador na Faculdade de Engenharia Química, Universidade Federal de Uberlândia. Interesses: História da Ciência e da Tecnologia; Filosofia da Ciência e da Tecnologia; Ciência e espiritualidade; Novas metodologias no ensino de engenharia.
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